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A identidade múltipla do nipo-brasileiro em seu país, o Brasil
Os nipo-brasileiros têm um senso de identidade de diáspora? Os nikkeis brasileiros estão descontentes? Em caso afirmativo, o que faz com que essa diáspora seja mais ou menos descontente que as outras? E, por que os nipo-brasileiros se tornaram um foco de debates culturais em São Paulo e em todo o Brasil? Essas questões foram levantadas pelo historiador americano Jeffrey Lesser alguns anos atrás, e agora o estudioso lança o resultado desta pesquisa no livro Uma diáspora descontente: os nipo-brasileiros e os significados da militância étnica 1960-1980.
Lesser, que há muitos anos estuda o Brasil, faz neste livro uma triangulação entre uma cidade (São Paulo), um país (Japão) e um grupo étnico (nipo-brasileiros) e pergunta o que a relação entre os três, nas décadas de 1960 a 1980, período da ditadura militar, tem a nos ensinar sobre etnicidade e identidade nacional. “Minha abordagem parte do pressuposto de que a identidade é multifacetada (étnica, nacional e regional) e simultaneamente, global e local”, diz o professor da Emory University (Atlanta, EUA).
No livro, o autor sugere que os brasileiros têm uma idéia equivocada de que os nikkeis “se sentem japoneses” e que têm um vínculo emocional com o Japão. Segundo ele, os nikkeis entrevistados para a pesquisa sempre afirmaram sua brasilidade. A suposta idéia de diáspora, criada pela sociedade não-nikkei de São Paulo e pelos imigrantes japoneses, gerou tanto uma comunidade ética opressiva como uma sociedade majoritária opressiva, explica o pesquisador.
Para Lesser, a idéia é que os brasileiros não-nikkeis imaginam que os nipo-brasileiros são muito ligados ao Japão, ou seja, têm uma vida na diáspora. No entanto, no seu levantamento, ele percebeu que os nipo-brasileiros são de fato ligados ao Brasil e que são descontentes por serem vistos, pela fatia não-nikkei, como imigrantes e ligados ao Japão — ao invés de serem considerados “nacionais” e vinculados ao Brasil.
Durante o estudo, o autor optou por centrar seu levantamento em duas experiências culturais: o cinema erótico e a militância política. Segundo ele, os jovens nikkeis estavam certos de que sua participação nessas duas áreas resultaria em um reconhecimento de sua brasilidade por parte da sociedade brasileira. Porém, para o pesquisador, eles estavam enganados. Ao participarem destas atividades eles estavam reforçando sua condição de minoria.
No cinema, Jeffrey analisou seis filmes brasileiros que apresentavam personagens nikkeis. Entre eles: Gaijin: os caminhos da liberdade, de Tisuka Yamasaki, e Noite vazia, de Walter Hugo Khouri. Neles, o pesquisador procurou examinar de que forma a etnicidade se relacionava às idéias paulistas sobre nação, que então passavam por um processo de transformação. Já na política, faz um estudo dos casos dos estudantes nipo-brasileiros engajados em atividades políticas, durante o período da ditadura. O livro destaca a história de Mário Japa, codinome de Shizuo Osawa, adversário ativo do golpe militar de 1964.
Em sua pesquisa, Lesser trabalhou com várias fontes como filmes, relatos orais, cartazes, anúncios, jornais, fotografias e boletins de ocorrências policiais, registros oficiais e correspondências diplomáticas, sendo que algumas delas agora compõem as ilustrações do livro. Para o autor, “uma análise das identidades presentes em São Paulo nas décadas finais do século XX é útil para uma compreensão mais ampla do Brasil”.
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O autor participará da Conferência Internacional: Herança Espiritual Japonesa no Brasil,
na Fundação Mokiti Okada
(Rua Morgado de Mateus, 77, Tel. 11 5087 5025, em São Paulo/SP), nos dias 24 a 27 de agosto.
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