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Entrevista

Acaba de sair pela Editora Paz e Terra o terceiro volume da Coleção Margens – Revoluções de independências e nacionalismos nas Américas, seleção de artigos que aprofundam os estudos sobre a história cultural, política e intelectual na América Latina.

Os organizadores da Coleção, Maria Elisa Mäder e Marco A. Pamplona, comentam, nesta entrevista, a importância e a atualidade da análise histórica sobre aspectos políticos, econômicos e estruturais das sociedades latino-americanas.

Maria Elisa é doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense e autora de diversos artigos sobre a América Latina. Atualmente é professora de História da América no Departamento de História da PUC-Rio. Pamplona, doutor em História pela Columbia University de Nova York, é professor de História da América no Departamento de História da PUC-Rio. É autor de Revendo o sonho americano: 1879-1972 (Atual, 1996), Revoltas, Repúblicas e Cidadania (Record, 2003) e co-organizador de Nacionalismo no Novo Mundo – A formação de estados-nação no século XIX (Record, 2008).

1. Qual a importância de se analisar a história cultural, política e intelectual na América Latina?
É essa a proposta da coleção? Em que difere de análises anteriores? A proposta de fazer uma análise mais centrada na história cultural, política e intelectual da América Latina segue uma tendência atual da historiografia que é privilegiar as conexões entre a história intelectual e a história social e seus laços com a antropologia e a sociologia. Uma história intelectual que abrange uma preocupação com a articulação das idéias às suas condições externas – “com a vida do povo que é o seu portador”. Não se trata mais de uma história de idéias desencarnadas, que existem por si, mas de idéias relacionadas a um determinado contexto. A história política também não mais entendida como uma sucessão de fatos, datas e nomes, ou vinculada a uma visão nacionalista da história, mas seguindo uma renovação dos estudos sobre história política que vem ocorrendo desde o final dos anos 1980. Sem dúvida esse enfoque traz inovações significativas às análises sobre a América Latina dos anos 1970/80, mais centradas nos aspectos econômicos e estruturais daquelas sociedades.

2. Explorando a diversidade entre as sociedades latino-americanas qual a conclusão a que se chega?
Qual o impacto dessa análise na compreensão específica do desenvolvimento brasileiro? Como dissemos na apresentação do primeiro volume da Coleção, o estudo da América Latina, tão recorrente nos anos de 1970 e 1980, merece e necessita ser revisitado hoje, a partir de outros e novos olhares. Neste sentido, nossa proposta é abordar tópicos do âmbito da história cultural, política e intelectual desenvolvida em diversos países da América Latina, que possam vir a ser trabalhados numa perspectiva comparada. Nosso objetivo é menos o de acentuar a existência de qualquer unidade ou identidade latino-americana, sobretudo hoje, e mais o de explorar a diversidade do continente. Valorizamos, assim, a riqueza das diferenças encontradas, enfim, as “margens” – aqui entendidas como múltiplos “espaços de troca” ou entre-lugares –, existentes entre as várias sociedades que se identificam ou são identificadas com o termo.
A perspectiva comparada nos permite trazer reflexões acerca das revoluções de independência e da construção da nação nas Américas para pensar as especificidades do caso brasileiro. Nosso processo de independência apresentou semelhanças com os processos experimentados na América Hispânica, mas vivemos, por exemplo, a particularidade da transferência da família real para cá o que trouxe consequencias diversas da América Hispânica que experimentou a chamada "acefalia do reino" quando, com a invasão napoleônica, em 1807, o rei Fernando VII foi deposto. Fomos também a única monarquia em meio a uma América cujas futuras nações adotaram a forma republicana de governo. Esses são alguns exemplos de como o tema e as perspectivas adotadas na Coleção Margens podem nos ajudar a pensar a diversidade existente na chamada América Latina atual.

3. Sobre este terceiro volume especificamente, qual a época que os artigos abrangem?
Falem um pouco sobre essa pesquisa histórica. O terceiro volume da Coleção Margens trata das revoluções de independência e dos nacionalismos no antigo Vice-Reino de Nova Granada, na Venezuela e em Cuba, ao longo do século XIX. Nesse cenário, não obstante os traços comuns, as distintas regiões vice-reinais seguiram trajetórias muito particulares. Os dois primeiros volumes já publicados nos mostraram os desdobramentos da crise ibérica em casos bastante distintos: nas regiões administrativas criadas mais tardiamente, o Vice-Reino do Prata e a Capitania Geral do Chile e na mais antiga região de Terra Firme nas Américas, a Nova Espanha e as províncias da América Central. Com esta publicação avançamos em nosso objetivo de apresentar ao público brasileiro discussões historiográficas atualizadas sobre os temas relacionados às independências e à formação dos estados-nação na América Ibérica, selecionando mais uma vez um número de destacados historiadores contemporâneos latino-americanos, europeus e brasileiros, que se especializaram no seu tratamento.
Os artigos que compõem este terceiro volume analisam o tema da independência, seus resultados políticos e, sobretudo, seu impacto sobre a estrutura e o ordenamento da nova sociedade que se construiu sob a égide republicana na região do antigo Vice-Reino da Nova Granada; discutem o papel desempenhado por mulheres que participaram ativamente neste processo emancipatório, e que, posteriormente, tiveram suas imagens apropriadas nos processos de construção de memórias nacionais; trazem reflexões teóricas sobre a construção de estados nacionais nesta região, fazendo um balanço do estágio atual das pesquisas sobre este fenômeno. Apresenta-se ainda uma análise do que a historiografia sobre Cuba vem publicando nos últimos anos a respeito da particularidade da ilha no contexto maior da crise do colonialismo ibérico, ao buscar a manutenção do tráfico e da escravidão em uma conformação política monárquica e constitucional. Como nos outros volumes da Coleção os autores apresentam ao final de cada artigo uma seleção de documentos de tradução e publicação inéditas no Brasil.

Debate com autores e organizadores + sessão de autógrafos

Dia 13 de Maio de 2009, quarta-feira, às 17h30
Anfiteatro de História - FFLCH-USP Av. Prof. Lineu Prestes, 338 - Cidade Universitária Tel.: 11 3091 3760

Editora Paz e Terra
2009
1ª edição
324 Páginas
Formato: 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-7753-090-8
R$ 39,00
Código: 10687

Segmento(s):
História


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