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“Se não tivesse a crise não sei se o Obama teria ganho.”

Fernando Henrique Cardoso

Fechando a mesa-redonda, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez uma avaliação geral do que foi dito anteriormente e discutiu até que ponto vai ser possível, em função da crise, imaginar como a organização de um sistema multilateral e global vai se fortalecer, e como isto terá efeitos positivos no plano econômico.

O sociólogo pergunta: até que ponto os novos temas serão mais bem encaminhados em conseqüência de dois processos: o da crise e o da eleição do Obama. E ainda, até que ponto os Estados Unidos terão uma posição hegemônica. Segundo ele, há apostas. “Num conjunto em que eu depreendi e aprendi dos que me antecederam, os Estados Unidos vão continuar sendo muito importantes porque eles têm uma capacidade cultural imensa, e quem sabe a eleição do Obama seja um sinal positivo e reforça uma base de valores. Eles ainda continuam sendo uma potência militar muito forte, com uma ressalta, que esta potência muito forte é frágil diante da decisão de pessoas de enfrentarem o adversário.”

Reforçando a idéia de Rubens Ricupero de que as decisões tem sido de Estado, ele disse: o poderio econômico americano é extraordinário mas eventualmente haverá uma diminuição deste poderio em função do acréscimo de outros atores. Talvez estes outros atores possam ter um papel mais relevante que tiveram até hoje: atores que são Estado-nação.”

Fernando Henrique fez algumas considerações com relação à importância da moeda americana após a Segunda Guerra Mundial. Segundo ele, nós estamos assistindo algo surpreendente que é a transformação do Banco Central nos Estados Unidos em banco comercial e em prestador do mundo. “A crise acentuou um lado que sempre combatemos que é da gerência e da dominação do tesouro americano e do Fundo Monetário. O sustentáculo continua sendo o tesouro americano e o Fed.”

O sociólogo acha que alguma coisa pode mudar com a crise e a eleição americana. “O Obama ganhou nos Estados Unidos, mas não entre os brancos americanos. Quem elegeu o Obama foram os negros e os hispânicos. Os seja, se não tivesse a crise não sei se o Obama teria ganho. Portanto, a conseqüência já houve.”

Com relação a uma reconstrução na ordem global, falou: “É necessário uma construção. Estamos em marcha nesta construção mas vai demorar muito tempo, décadas. Como vai demorar também décadas para a consolidação de um sistema que seja mais eficiente do que o que existe até agora, mais multilateral e leve em consideração as realidades: o poder econômico e o militar.” De acordo com o ex-presidente, o que está em jogo é: será que esta crise vai levar a alguma revisão cultural, quase civilizatória?

Fernando Henrique disse que a partir de agora ouviremos muito sobre especulação. Para ele, a especulação é parte do sistema capitalista. “Se você não tem especulação, não tem a sinalização do futuro. Por isto a regulação vai se tentar fazer.” Mas, segundo ele, ela tem limites. “Haverá tendência a alguma regulação mas não pode ser muita, porque senão ela mata o dinamismo do sistema, e lamento, é possível que tenhamos outra crise daqui a algum tempo. Isto faz parte do sistema.”

 

Início da matéria: A crise financeira no divã de autoridades e estudiosos

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