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O homem em situação de confinamento e diante do seu semelhante motiva Dupas à reflexão sobre a natureza humana
Gilberto Dupas deixa um pouco de lado as análises sobre economia política e social, sua especialidade, e lança agora seu novo romance: O incidente. Em tom de fábula, tecida por múltiplas vozes, Dupas narra a história de um grupo de latino-americanos que, a caminho de um encontro internacional de ciências sociais, é impedido de seguir viagem por conta de uma nevasca. Abandonados e isolados em um abrigo precário, por uma noite, eles trocam confidências em meio à penumbra.
São nas narrativas das lembranças, confissões e angústias de seus personagens, ditas de forma sucinta e profunda, entre as quatro paredes, que o autor explora com desenvoltura os mistérios e a complexidade da vida. “Começa com ligeiros sinais: a pequena curva do canto esquerdo da boca, o jeito contido de terminar o sorriso, um certo brilho de diamante no olhar, os dedos longos com unhas curtas sem esmalte, uma languidez felina ao acomodar-se no canto do sofá. Traços mágicos. Sem que saibamos de onde nem por que, eles acendem o fogaréu.(...). Construída a paixão, entregamos-lhe todas as chaves dos nossos grilhões. Enquanto ela vive, assume um poder total. Toma pensamentos, condiciona atos, diz que o verde é vermelho, torna sublime o indecente”, conta um de seus personagens.
Ao final da obra, Dupas retira seus atores do clima de sonho e ilusão: no dia seguinte, quando a luz aparece, todos se comportam como desconhecidos, como se nenhuma daquelas histórias e relatos da longa vigília tivessem acontecido. “Os companheiros de escalada colocaram apressados seus abrigos, cada qual querendo ser o primeiro a sair. (...) Percebia-se uma tentativa geral de identificar os depoimentos com os rostos que agora se mostravam ao sol. No entanto, essa tarefa parecia quase impossível”, escreve o autor.
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O incidente
Gilberto Dupas
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